Alguém está chorando com rádio ligado

Ao levar a esse público, por meio da música, as histórias, sotaque e as recordações da vivência no campo, o rádio auxilia milhares de pessoas a se reconectarem com suas origens

Por Sérgio Santa Rosa

O panorama nos primeiros anos dessa relação entre o rádio e a cultura musical dos caipiras, no decorrer da década de 1930, não poderia ser mais fértil. Os aparelhos receptores de rádio constituíam o sonho de consumo das famílias brasileiras e já se faziam presentes nas cidades interioranas, que também começavam a ter suas próprias estações de rádio. Municípios como Sorocaba, Botucatu, Araraquara, São Manuel, Franca, Ribeirão Preto e Piracicaba, entre outros, inauguraram suas emissoras ainda naquela década. 

Por outro lado, os cantores de sucesso e as gravadoras tinham um rico filão à sua disposição, o das composições sem autor definido, criadas coletiva ou comunitariamente pelos artistas populares do interior. E o exploravam com vigor.

 “A caça ao tesouro, nos anos 30, estava no auge. A música anônima do povo interiorano oferecia um banquete à indústria fonográfica. Os artistas com acesso aos estúdios, faziam a ponte entre a produção das roças e os sertões perdidos do país e os discos”, conta Rosa Nepomuceno, em seu livro “Música caipira: da roça ao rodeio”.

Com o desenvolvimento técnico e a produção artística em alta, o rádio vai passar a oferecer programas inteiramente voltados para o público que migrara do interior para as áreas urbanas, sobretudo nas grandes cidades da região sudeste, deixando de lavrar a terra e lidar com o gado, para derramar seu suor no chão das fábricas.

Ao levar a esse público, por meio da música, as histórias, a poesia, a fé, o modo de falar, o sotaque e as recordações da vivência no campo, o rádio auxilia milhares de pessoas a se reconectarem com suas origens. 

A música caipira é calcada numa tradição oral de se utilizar o romance, a narrativa, para se registrar fatos, contar histórias ou imaginar histórias que transmitem valores”, ressalta Ivan Vilela. “A música sertaneja e sua radiodifusão operaram como fatores aglutinantes e reenraizantes dos valores da vida do camponês caipira, agora urbano. A música sertaneja agiu como mantenedora dos valores referenciais desse povo. (…) Em um mundo onde quase só aprendemos a história única dos vencedores, pela produção musical dos caipiras, tivemos acesso a uma história dos vencidos, dos que se sujeitaram, mas não tombaram, não perderam o senso de si próprios”, escreve em seu livro “Cantando a própria história: música caipira e enraizamento”.

Muitos clássicos do cancioneiro caipira retratam as agruras da inadaptação do camponês à vida urbana e suas saudades da roça. A canção “Saudade de Minha Terra”, composição do também radialista Gérson Coutinho da Silva, mais conhecido como Goiá, imenso sucesso nas vozes de Belmonte e Amaraí e regravada por centenas de artistas, explicita a presença do rádio na manutenção da relação afetiva do caipira migrante com sua cultura original.

“Por Nossa Senhora, meu sertão querido,
Vivo arrependido por ter te deixado.
Esta nova vida, aqui na cidade,
De tanta saudade eu tenho chorado.
Aqui tem alguém, diz que me quer bem,
Mas não me convém, eu tenho pensado.
Eu fico com pena, mas esta morena,
Não sabe o sistema em que fui criado.
Tô aqui cantando, de longe escutando,
Alguém está chorando com o rádio ligado.”

Até hoje esse sentimento se faz presente entre os ouvintes da música caipira. José Maria Leonel, com sua experiência de 56 anos de rádio e o orgulho de ser nascido em Piapara, zona rural de Botucatu, lugar antigamente conhecido como Alambari, citado na clássica “Boiada Cuiabana”, de Raul Torres, comenta sobre o público do seu “Programa do Zé Maria”, na Rádio Municipalista de Botucatu.

 “Embora eu saiba que tenho ouvintes em todas as regiões da cidade e entre a gente letrada, o que prevalece são aquelas pessoas que, como eu, têm as suas raízes lá no campo, lá no chão. Esse ouvinte espera voltar no tempo. Ele tem saudade do que passou. Gosta das modas que voltam para as origens. Eu tenho certeza absoluta de que eu faço rádio, principalmente, para essas pessoas que hoje moram nas periferias da cidade”.

  • Dica de livro:
  • “Cantando a própria história: música caipira e enraizamento”, de Ivan Vilela.
  •  “Histórias que o rádio não contou”, de Reynaldo C. Tavares.

Quer saber mais sobre a importância do rádio para a difusão da música caipira? Acompanhe a nossa série sobre o Rádio em nosso site e redes sociais!

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