“A Viola Encarnada”: a música caipira no universo das HQs

Obra do quadrinista e músico Yuri Garfunkel traz referências a mais de 80 canções do gênero

O Troféu HQ Mix é a mais tradicional e importante premiação dos quadrinhos brasileiros. Na edição desse ano, que premia os melhores trabalhos lançados em 2019, a publicação “A Viola Encarnada: modas de viola em quadrinhos” foi indicada ao prêmio HQ Mix na categoria “Adaptação Para Quadrinhos”. A indicação consagra a imersão do desenhista e músico Yuri Garfunkel no vasto universo do cancioneiro caipira e a sua tradução pioneira desse repertório para a linguagem das histórias em quadrinhos.

Em pouco mais de 160 páginas ricamente ilustradas, é contada uma história que parte do assassinato de Chico Mineiro, personagem do grande sucesso de Tonico e Tinoco, composto por Francisco Ribeiro e Tonico, e segue por uma trama elaborada a partir de referências a mais de 80 canções dentre as mais representativas do gênero. Todas as composições citadas estão devidamente listadas na publicação, que termina por oferecer uma história da música caipira, desde suas origens rurais até sua chegada à cidade grande.

As imagens fortes contidas nas narrativas do repertório caipira, carregadas de apelo emocional e ricas em referências à vida no campo, foram fundamentais para a ideia de realizar “A Viola Encarnada”, revela Yuri. “A forma da narrativa da música caipira e as informações que ela traz sobre o universo rural me chamaram muito a atenção ao ouvir essas canções, principalmente na coleção de discos “Modas de Viola Classe A”, de Tião Carreiro e Pardinho. Passei muito tempo ouvindo as modas e costurando a estrutura da história”. Da ideia inicial até a publicação, foram cerca de quatro anos de trabalho.

A experiência de ler “A Viola Encarnada” é parecida com a de assistir a um filme mudo, que se completa com a trilha sonora. Com exceção de breves introduções no início de cada capítulo, o gibi não tem texto, a história toda é contada pelas imagens. A opção estética do autor está explicada no prefácio da publicação: “Ao optar pelo silêncio, abrimos espaço para que a música caipira possa soar e ambientar cada imagem dessa história, que só é completa com música e um leitor-ouvinte”.

O projeto teve apoio do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e contou com a valiosa consultoria do pesquisador e violeiro Ivan Vilela. “Fui assistir uma palestra do Ivan, me apresentei, falei sobre o projeto e ele topou na hora. Ele foi muito generoso. Nem me conhecia e me ajudou demais: leu o roteiro, deu sugestões importantes e tirou muitas dúvidas que iam surgindo”, conta Yuri. 

Ivan Vilela também escreveu o prefácio de “A Viola Encarnada”, onde cravou: “Yuri resgata uma coisa importante: seu desenho é sofisticado dentro de uma banda desenhada que aparentemente é simples, tal qual a música caipira que guarda sofisticações interpretativas e rítmicas dentro de uma sonoridade que nos soa como simplicidade. Faz sentido trazer para os quadrinhos uma música que tem uma narrativa tão imagética”.

“A Viola Encarnada” integra uma leva de HQs que deixam de lado as narrativas urbanas ou de ficção científica e se voltam para aspectos da cultura ou da história brasileira, constituindo um filão que tem sido explorado com bons resultados pelos artistas. “Atualmente, tem muito quadrinho interessante sendo feito sendo feito no Brasil com temática popular”, comenta Yuri, citando as obras de Marcelo D`Salete e Hugo Canuto. “Vários quadrinistas da minha geração estão abraçando a cultura brasileira”. 

A boa recepção da sua primeira publicação autoral individual e a sua indicação ao Troféu HQ Mix, atestam que Yuri conseguiu criar uma obra de inegável valor. Além disso, “A Viola Encarnada” cumpre a função de homenagear e valorizar uma cultura importante na constituição da identidade do povo brasileiro, no que ela tem de melhor. Como escreve Ivan Vilela no prefácio do gibi: “Longe de ser o atrasado, podemos olhar o caipira como o que não abre mão de seus valores em troca de valores fugazes. Podemos olhar o caipira como aquele que resiste. E que bom que ainda guardamos em muitos de nossos costumes esses valores tão nobres que herdamos dessa gente humilde, desse povo do campo, desse povo caipira”.

Evocando Guimarães Rosa, Yuri matuta e arremata: “Eu moro no centro de São Paulo. Mas fico imaginando que é só derrubar essas paredes e o sertão estará aí. Tudo isso sempre foi sertão e sempre será”.

Por Sergio Santa Rosa

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